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Abstrato e tão real.

Fico a imaginar aquela criaturinha na ponta dos pés descalços, naquele piso frio tentando alcançar a maçaneta com sua mãozinha para abrir a porta.
E olha que tudo é muito e tão real, que nem fecho mais os olhos para sonhar ou imaginar.
Ele está aqui no meio de nós e vem tomando espaço a cada dia que passa, a cada milímetro que o útero cresce e aquela linda barriga vai aumentando e aumentando.
Ele está aqui, e vai muito além daquela linda barriga, ele está nas conversas, nos e-mails, nos presentes que chegam. O nome dele ecoa pelo corredor da casa e preenche o todo e é o tudo de nossas vidas.
É abstrato imaginar como será o rostinho dele, mas é real a Vovó Imaculada, bobes na cabeça, coruja como manda a cartilha, trazendo um baita carrinho de bebê para o neto.
A cor dos olhos, do cabelo, o tom da pele ainda são abstratos para nós, mas é real o Vovó Marcelino, ou Seu Nenê para os íntimos, a trabalhar forte nos preparativos do quarto. Haja cerrote, parafusos e o som da furadeira.
Terá cabelos lisos ou enrolados? Uma incógnita. Certeza apenas a consultoria da Tia Elisabete, e do Tio Sandro, são eles os pais mais recentes da família, a Mel tem pouco mais de três anos.
Real é o estetoscópio da tia Lidiane, que percorre a linda barriga a buscar as batidas fortes do coração dele.
Tudo é abstrato e tão real.
Ah Joaquim, estamos te esperando!
Que sua mãozinha alcance a maçaneta e abra a porta encantada.
Por ela você vai atravessar e encontrar um mundo novo, onde terá carinho, aconchego e desafios.
Também vai encontrar feras, e que você tenha a força de leões, hipopótamos e elefantes, que seja grande como a girafa e esperto e alegre como os macaquinhos.
Você não vai encontrar o azul nem verdinho como dos outros garotinhos, (nada contra os que são). Vai encontrar o areia.
Areia da imensidão do mar, para olhar no horizonte e ir fomentando o desejo de conquista, de desbravar, nadando muito e duro para o desconhecido.
Vai encontrar o branco da pureza da alma, da sua alma inocente.
Ah Joaquim, estamos te esperando!
E quero ver você na ponta dos pés descalços, naquele piso frio, vestido com uma bermudinha pegando na canela e uma camisa azul com listras brancas e amarelas tentando alcançar a maçaneta com sua mãozinha para abrir a porta e sorrindo para mim.
É! E sorrindo para mim.
Ah Joaquim, estamos te esperando e aguardando enlouquecidamente que está imagem se materialize diante dos nossos olhos.

Porto Feliz, 23 de outubro 2009

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